EU SIMPLESMENTE SOUBE

Por: Marcella Brafman

Seria mais fácil se nosso destino já viesse traçado. Mas talvez não seja assim. Relaxaríamos e aproveitaríamos com mais facilidade os amores errados. Por só, e somente, por curtição. Não insistiríamos em manter na nossa vida a pessoa que nunca liga, nunca responde a mensagem ou sempre tem uma desculpa esfarrapada na ponta da língua. Deixaríamos essa pessoa pra lá. “Está traçado, só preciso ter calma, uma pessoa companheira, legal e feita para mim vai chegar”. Mas não é assim. O destino é um acaso. E talvez a vida seja desvendar os momentos certos.
Refleti isso porque me lembrei de algo que minha tia me contou. Ela é muito inteligente e se casou com um cara tão bacana quanto ela. Perguntei em que momento ela soube que era ele. “Eu simplesmente soube”, ela respondeu. São casados há muito anos, tiveram filhos incríveis e a família (não é porque faz parte da minha) é muito companheira.

Para simplesmente saber que a pessoa que chegou é a certa ou um grande amor, infelizmente não tenho a fórmula. Veja só minha tia, que achou o amor do outro lado do mundo e é apaixonada há tantos anos. Nem ela soube me explicar.

Até chegar nesse saber, vamos achar várias vezes. Quebrar a cara, cair, levantar. Jurar por Deus que não vamos nos esforçar tanto de novo. E tentar mais uma vez. Só mais uma vez. E mais duas, três… Acredito que se algo começa com um pensamento de “talvez”, dificilmente será de verdade, pleno, intenso, com defeitos e compreensões na medida saudável que o sentimento tranqüilo pede. O que vale a pena, precisa nos dar algum motivo para acreditar. Amores difíceis quase nunca dão.
Entende?

Vamos “simplesmente saber” quando pararmos de procurar o perfeito, traçado de uma forma totalmente tola pela nossa imaginação. É aí que está o timing do destino que falei. E para perder ele, basta acreditar que o que está na nossa frente nunca é o suficiente.

Escrevo para as mulheres que imaginam demais. Eu também sou assim. Não as culpo, é nosso maior defeito de fábrica. Não nos permitimos sentir porque o que imaginamos é muito melhor. É difícil entender que isso que queremos só existe na nossa cabeça. Abrir os olhos para a realidade pode ser cruel. Mas também pode ser uma delícia.

Procurar sempre pelo perfeito é sabotar o tempo certo do destino. Abra mais olhos, não perca o timing. Não perca a pessoa legal e interessante que investe na sua companhia. Esse cara pode não ser o homem ideal que a sua imaginação traçou, mas é o homem que gosta de você. Que quer cuidar de você.
Depois que relaxar dessa busca desenfreada, eu tenho certeza, você vai simplesmente saber. E jamais saberá explicar como aconteceu. O amor tem disso de ser totalmente surreal.

É por isso que a gente só sente e não consegue explicar. Porque a gente simplesmente sabe.

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”SERÁ SÓ IMAGINAÇÃO” :

Por: Aline

Alguém sabe onde a gente aperta pra esse mundo parar de rodar um pouquinho? Sério, tô meio tonta. Hoje minha vida está uma bagunça muito grande. Eu tenho essa mania ridícula de atropelar coisas e pessoas com minhas atitudes e tudo vai ficando meio desorganizado. Falo de palavras, de gestos, de coisas que eu deveria parar de fazer. A gente vai vivendo de um jeito meio egoísta em achar que só a gente merece ser feliz e acaba esquecendo um pouco das pessoas que, de uma forma ou de outra, fazem parte de toda a bagunça.

Sabe o que impressiona? A gente não quer mudar. Eu não quero mudar. Dá trabalho, é desgastante, não é pela gente. Deixa isso pra lá, joga debaixo do tapete. Finge que não viu. Não conta pra ninguém. Não funciona comigo. Sou meio barulhenta, espalhafatosa, grito quando deveria ficar quieta – fico quieta quando deveria gritar. Mas quem se importa? Deixa os outros, aqueles que não pagam nossas dívidas pra lá. Não, não funciona assim. Gosto dos pingos nos i’s. Gosto de gente decente, que se importa, que não pensa só no próprio umbigo – mesmo que às vezes eu não faça isso. É meio egoísta de novo pensar assim. Mas eu nunca disse que não era.

A música não tem relação com o post. Ela só está martelando na minha cabeça desde ontem.

NA TUA

Por: Gabito Nunes

Calma. Espera. Deixa eu organizar o que quero dizer. Assim. Aquele domingo, lembra? Fui buscar pão e geleia de morango, e pedi emprestado seu MP3 player para distrair meu caminho. Talvez através da sua seleção eu soubesse melhor quem você é. Sei que eu comentei algo idiota sobre uma suposta vontade de me enforcar após ouvir sua listagem e você, meio brabo, grosso e arredio, disse “se você está com vontade de comer uma torta de morangos deve procurar uma confeitaria, e não um açougue” e blá-blá-blá. Tudo bem, não está mais lá quem falou.

 

Só que eu estou aqui. Querendo saber mais coisas remotamente pessoais sobre você sem que uma expressão de pavor cruze seu rosto. Então, com quantos anos você perdeu a virgindade? Já foi a algum show do Whitesnake? Você teve sarampo quando criança? Você foi criança um dia, não foi? Como vai sua mãe? Você me quer apenas como sua garota de final de semana? Eu quero mais.

 

Eu sei o que você vai dizer. Mentira. Não sei. Mas gosto de fantasiar alguma coisa mais ou menos parecida com “Já estamos juntos desde sexta-feira, não estamos? Você ainda quer que eu fale? Desculpe, baby, isso já é pedir demais. Pensei que minhas intenções estivessem implícitas”. Aquele seu jeito seco e ao mesmo tempo delicado de esfregar a suas razões na minha cara. Odeio quando você está certo, coisa que acontece quase o tempo todo. Além do mais, não é justo. Você já me viu meio embriagada, sentada no meio-fio, chorando de saudades da minha mãe.

Enfim, em três meses você me viu chorando 43% do volume esperado para o ano inteiro. Mas é que, sei lá. Isso tudo, todo esse medo do nada-acontecer ou do tudo-acontecer-rápido-demais tem me deixado cansada. Nada de mais. Você sabe montes de coisas sobre mim, muito porque sou tagarela, coleciono tiques nervosos e acho que está sempre faltando um algo mais – por que se contentar com o ótimo, se pode ficar perfeito? Vocês meninos têm disso? Tipo, quando jogam videogame, desmontam motores ou fazem fogo, vocês trocam ideias, buscam saber o que o amiguinho acha a respeito disso e daquilo? Tudo bem, eu sei que não. Pode ficar aí, na tua, quieto, não se faz necessário reunir forças para mover lábios e cordas vocais para responder qualquer coisa que seja. Não quero incomodar, mas, vai, solta pelo menos um muxoxo ou me manda calar essa maldita boca.

Passear pela calçada contigo tem a mesma sensação de ir a um bom restaurante concorrido. Na sua testa está escrito RESERVADO, e eu espero de verdade que o lugar seja meu. Sabe, eu tenho adorado sentar à sua mesa e experimentar sua comida bonita, colorida, aromática, sedutora e cheia de sabor. Nunca me importei muito com a receita, os ingredientes e a forma de preparo. De todos os locais onde jantei, todas as vezes evitei descobrir ratos e baratas e outras guarnições escrotas nos bastidores daqueles idiotas. Eu não queria me decepcionar. Mas contigo é diferente. Eu preciso saber. Como vou saber se estou pisando em ovos se você não me convida para conhecer sua cozinha?

Me diz alguma coisa, vai. Me fala tudo aquilo que eu ando louca pra ouvir da sua boca. Sussurra, então. Ou me ensina a receptar telepatia, essa língua que só os inteligentes e evoluídos e incógnitos e brancas-nuvens conseguem decifrar. Porque eu já estourei minha cota de intuição. Diz que me adora, que gosta de mim, que sente saudades minhas e uma vontade insana de me ver em plena quarta-feira. Sei que não muda nada, mas eu preciso ouvir. Ou isso, ou eu pego minha bicicleta e dou o fora daqui. Agora. Sabe, não está dando muito certo, às vezes eu me sinto meio o Dick Vigarista gritando para o Mutley fazer alguma coisa. E você só olha meu desespero patético e fica rindo. E então? Como vai ser?

Desisto. Eu acho, às vezes, que seria mais produtivo perseguir pombos em praça pública. Bem, eu só queria dizer que, apesar desse seu jeito todo iceberg de ser, eu te acho um rapaz incrível. Você é o melhor ser humano entre os piores que já conheci. Ou o pior entre os melhores. Não sei. Sei que eu inexplicavelmente estou na tua e você sabe disso. Não dá bola, assim que meu ataque trevoso de angústia cessar, eu sei, não vou me importar nem um pouco se você ficar na tua, se você não ligar de me aturar falando pelos cotovelos, deitada do teu lado.

ERA BONITO:

Por: Bruna Vieira

Era bonito. Você escutava o que eu falava com uma paciência que poucos antes de você tiveram. E me abraçava quando as palavras acabavam e eu tinha que engolir o choro, porque continuavam esperando que eu fosse forte – de um jeito que eu nunca fui de verdade. Nós dois entrávamos numa sintonia ali naquele abraço, numa promessa silenciosa, não de pra sempre, mas de momento. “Eu estou aqui agora” – e isso era grande coisa. Uma coisa enorme. Simples, fácil, leve, bonita. Talvez, uma das coisas mais bonitas com as quais já esbarrei nos meus poucos anos de vida.

Você me apoiava. Não precisava me entender, concordar ou acreditar em mim. Você me apoiava porque dizia que me queria feliz. Um sorriso no rosto e um coração alegre. Lembra? Era o que você sempre dizia que eu deveria ter, quando, cansada, eu queria desistir da vida e jogar todos os meus sonhos para o ar. Você segurava minha mão, me fazia respirar fundo e repensar todas as minhas decisões. Dizia que eu tinha que ser menos radical nas minhas escolhas. Que tinha que ir com mais calma. Ter mais serenidade.

Era reconfortante. Você tinha um jeito só seu de entender minhas dores sem que eu precisasse explicá-las. E, quando viu minhas feridas, correu para a farmácia mais próxima para arranjar todos os curativos possíveis para que eu me livrasse das cicatrizes. Você me pegou aos pedaços, trouxe a cola e juntou pedaço por pedaço. Me colocou em pé outra vez, como se eu nunca tivesse caído.

Você me falou verdades que eu não queria ouvir. Me disse quando eu deveria parar. E avisou quando eu deveria continuar indo em frente. Você me ensinou e prestou atenção também nas minhas lições. Discutiu – sem me menosprezar – política, futebol e religião. Você assistiu aos jogos do tricolor ao meu lado. Sem se manifestar contra.

Era bonito. E era amizade, cumplicidade, sinceridade, companheirismo, olho no olho, mão na mão, sua vida na minha e minha vida na sua. Era um jeito de me importar sem obrigação. E ver você se importar comigo sem cobranças. Era bonito. Disso nunca tive nem dúvida. Agora, enquanto você arruma suas coisas e não me dói, eu vejo todas as esquinas do nosso caminho. A gente se desviou antes mesmo de se encontrar. E, no meio da estrada, quem roubou meu coração não foi você. Seu coração também nunca foi meu. Mas era bonito. De verdade, sabe? Por mais que ninguém nunca tenha entendido.

Você é uma dessas pessoas que entram na nossa vida uma única vez. Aparecem aqui, causam um alvoroço, nos ensinam a olhar a vida de uma maneira diferente e depois se vão. Têm outros caminhos para percorrer. Eu também vou para o outro lado. A gente não poderia mesmo ficar junto. Faltaria sempre alguma coisa. Um frio na barriga. Um coração acelerado. Um arrepio frio. Sempre existiria aquela vozinha chata: você sabe, não é ele. Não era você. Não fui eu também.

Porque era bonito, mas não era amor. Não era.