O DIA QUE ELA SE FOI

Por: Isabela Freitas 

E eu a perdi. Como quem perde o horário em uma estação de trem. Não sei quando foi que isso aconteceu – ou como isso aconteceu. Foi de repente, sabe? Ela disse que estava cansada. Cansada de que? Eu estava sempre ali, vendo televisão, lendo meus livros, trabalhando… É. Talvez eu não tenha dado a devida atenção que a minha garota merecia. Ah, minha garota… Onde será que você está no momento em que escrevo esse texto?

Me lembro até hoje da primeira vez que a vi. Ela estava linda. Vestido preto, casaco de couro e aquelas botas que nunca tira. Escutando uma música qualquer com seus fones de ouvido coloridos – que em minha imaginação fértil, desejei que fosse Jimmy Hendrix. Os cabelos um pouco bagunçados demais – como se quisesse passar a ideia de uma criatura indomável. Gostei de cara. Ela? Nem tanto. Foi preciso mais do que cantadas prontas e meus olhos azuis para conquistá-la. Valeu a pena. Ela com certeza era a mulher da minha vida. Como era bom o nosso amor. Era puro.

Não sei em que momento a perdi. só sei que a perdi. A rotina não nos deixa valorizar os pequenos momentos – pelo contrário. Nossas refeições já não eram mais divertidas e cheias de gargalhadas. Agora que me recordo, tenho a sensação que parecíamos dois advogados em uma reunião importante. Quietos. Com medo de falar muito. Nossa casa era fria, branca e silenciosa. Pensamos até em adotar um cãozinho, quem sabe ele não traria um pouco de alegria? Mas estávamos apenas nos iludindo. Nós não precisávamos de um cãozinho. Nós precisávamos voltar a ser quem éramos. Precisávamos de mais bilhetinhos de “Bom dia” ao invés de um “eu te amo” automático. Eu devia ter perguntando mais vezes se estava tudo bem com a intenção de realmente saber o que se passava com ela. Eu devia ter dado um abraço apertado para cada hora do dia em que pensava nela. Eu devia ter me lembrado dos detalhes antes que fosse tarde… Bem, já é tarde.

São poucos os que conseguem manter a chama de um grande amor acesa. O amor de nada vale sem as faíscas  Queimando. Ardendo. E eu? Bem, eu deixei que o nosso pequeno incêndio se apagasse. Os bombeiros chegaram rápido demais. Não tive tempo para despedidas, lágrimas e nem para sentir o cheiro dela uma última vez. Então aqui estou – sentado em um sofá grande demais, em uma casa cheia de espaços vazios e silenciosos  Estou escrevendo esse texto. Escrevo porque quero que você, que está lendo do outro lado do papel, não deixe que ela se vá. Não perca a sua garota.

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