LARA:

Por: Marcela Brafman

Lara tem essa mania de sentir com o pensamento. Caramba, como sente. Pensa e já arrepia. Voa longe. Principalmente quando escuta junto alguma música. Dá pra imaginar muita coisa, pensa Lara. Dá pra pensar muita coisa, imagina Lara. Lara é todo aquele turbilhão.
A moça ofende a si mesma quando pensa algo tão surreal. A música que combina com ele pegando na cintura dela, com ele abrindo um vinho barato, com ele ofegante depois de fazer amor. Ela voa. Pensa no jeito dele de vestir que nem é o jeito dele de verdade. Gostou de um tênis que viu num filme, e quis que ele usasse exatamente esse tênis no seu pensamento. Quis também a blusa xadrez, e ele provavelmente nem tem disso no armário.
Lara termina todos os dias exausta de tanto imaginar. É sempre Ele e Ela. De um jeito desenfreado, totalmente torto. Ela começa suas noites pedindo para que, por favor, ele desapareça um pouco da sua mente e vá passear. Vai, nessa, moço. Vá um pouco para a cabeça de quem não se importa muito, de quem pensa Nele entre dois pensamentos bobos, como o que vai comer no almoço e o que vai pedir no jantar. É que nela, Ele gruda. Nos outros, ele é só aquele moço atravessando a rua. Ela pararia o tempo só para vê-lo atravessando a rua. O amor é um pouco sacana mesmo, conclui Lara. Na sua rua, Ele nunca passa. Para Lara, que trocaria os segundos para tê-lo perto, Ele nunca está.
De repente, Lara percebe que pensou demais. Que ao vivo é tudo diferente. Viver dentro do pensamento é muito mais quentinho e seguro. É um mundo particular. Ser um turbilhão de pensamentos é viver tudo que a gente sente, sem precisar ter vivido. Duas vidas em uma só. De alguma forma, a gente tem algo que queria da forma mais sincera do mundo, por perto. O mundo lá fora deveria ser igual a tudo que imaginamos do fundo da alma. O mundo lá fora deveria ser mais quentinho e seguro também. Pobre, Lara.

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